Roteiro 02
Choco frito, o prato de Setúbal

Nenhum prato identifica uma cidade portuguesa de forma tão direta como o choco frito identifica Setúbal. Tiras de choco panadas e fritas, servidas com batata frita, limão e salada - a receita parece simples, mas a versão setubalense tem regras próprias e uma geografia precisa: a Avenida Luísa Todi e as ruas em redor do mercado.
O que distingue o choco frito de Setúbal
O choco chega do estuário do Sado e da costa próxima, e essa proximidade faz a diferença no prato. Antes de ir à fritura, o choco é limpo e cortado em tiras grossas, passa por uma marinada - cada casa guarda a sua, com alho, louro e por vezes vinho branco ou pimentão - e é depois envolvido em farinha e frito em óleo bem quente. O resultado certo é uma crosta dourada e estaladiça com o interior tenro, nunca borrachudo.
Serve-se tradicionalmente com batata frita caseira às rodelas, meio limão e salada simples. Come-se ao almoço, em doses generosas, e acompanha-se com vinho branco da região ou uma imperial fresca.
Onde comer
A concentração de casas especializadas na Avenida Luísa Todi tornou-a o eixo natural do prato. A Casa Santiago, conhecida localmente como o Rei do Choco Frito, é o nome mais citado e enche todos os dias ao almoço. Nas imediações do Mercado do Livramento e na zona ribeirinha multiplicam-se tascas e restaurantes de peixe onde o choco frito divide a carta com o peixe grelhado do dia.
As casas mais procuradas não aceitam reserva e formam fila entre as 12h30 e as 14h. Almoçar cedo, antes do meio-dia e meia, é a forma mais segura de evitar espera.
Feijoada de chocos
O segundo prato de choco da cidade é a feijoada de chocos, guisado de feijão branco com choco em pedaços, tomate, cebola e um toque de piripíri. É comida de tacho, mais frequente nas tascas do que nos restaurantes de montra, e tem tantos adeptos como céticos - a textura do choco estufado é diferente da versão frita e nem todos a preferem. Vale a prova para quem quer conhecer a cozinha setubalense além do prato-bandeira.
O festival dedicado ao choco
O calendário gastronómico local dedica ao choco um festival anual, com as casas da cidade a apresentarem variações do prato - do choco frito clássico ao arroz de choco e à feijoada. As datas variam de ano para ano, mas o certame realiza-se habitualmente fora dos meses de pico do verão, o que dá mais uma razão para visitar a cidade na época intermédia.
Um prato, uma cidade
O choco frito custa tipicamente o preço de um prato do dia e serve-se sem cerimónia - papel na mesa, dose farta, limão à parte. É essa franqueza que o tornou símbolo da cidade: um prato de porto de pesca, pensado para quem trabalha, que resistiu à moda e se tornou, por direito próprio, o motivo pelo qual muita gente atravessa o Tejo ao fim de semana.